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A Invisibilidade dos Assistentes Sociais nos Média, em Portugal

O défice de visibilidade dos assistentes sociais noespaço público (refiro-me concretamente aos Média tradicionais) tem conduzido, de alguma forma, ao esquecimento da classe profissional nos sistemas institucionais do nosso país. Encontramo-nos num mundo em mutação veloz,numa sociedade que é agora globalizada e mais democratizada, situação à qual não são alheias as novas redes de comunicação virtuais/online, com implicações no nosso modo de pensar e agir na realidade societal.

O Serviço Social é uma disciplina das ciênciassociais e humanas, confrontada, assim, com aexigência de investigar/pesquisar métodos etécnicas de intervenção ajustadas às novas ecomplexas realidades sociais geradas, quer pelaglobalização, quer pelas crises económicas e financeiras internacionais. Exige-se, ainda ,alterações naqueles que são os paradigmas mais tradicionais na acção dos seus profissionais -assistentes sociais-, encontrando assim formas mais adequadas e eficientes de responder às novas situações-problema” vivenciadas pelos indivíduos, famílias e comunidades.

Nas instituições em que se enquadram,  aos Assistentes Sociais sãorequeridas, práticasprofissionais diligentes e eficazes (“soluções impetuosas”) para problemas multifacetados e de complexa resolução. Nos grupos da população que atendem, inserem-se agora indivíduos e famílias que outrora se situavam num grupo social tido como “privilegiado” -classe média-, as quais se conservavam fora do sistema de proteção social (sem necessidade de a ele recorrer). Paralelamente, os profissionais continuam a trabalharcom os grupos da população socialmente mais vulneráveis que subsistem (situação à qual não é alheio o caráter multidimensional e geracional da pobreza e da exclusão social). Estas novas realidades enfatizam complexidades acrescidas na intervenção, desafios que suscitam aos assistentes sociais necessidades de formação especializada na(s) área(s) específica(s) da sua acção, com o objectivo de desvendarem meios/estratégias de superação/resolução dos problemas societais.

Numa sociedade plural e aberta aos vários subsistemas, a actuação dos Assistentes Sociais (bem como dos diversos profissionais em geral) encontra-se agora mais exposta sendo o seu trabalho regularmente alvo do “escrutínio” na esfera pública, situação para a qual tem contribuído os “Média”- denominados por alguns autores de “quarto poder”-. Julgo que esta realidadenão é necessariamente negativa, já que os profissionais da comunicação social (jornalistas e outros comunicadores) têm como objectivo o “direito de informar”, acção tão fundamental para o exercício da cidadania. Pois, se a notícia for tratada com os princípios exigidos aos seus profissionais – ética, sigilo e confidencialidade-, ela constitui-se num meio de “capitalização da cidadania”, numa sociedade que tem o direito de ser informada.

Sabemos que as instituições sociais sã ofundamentais para os indivíduos, mas, na sua organização encerram dinâmicas complexas eburocráticas, causando, por vezes, disparidades, desvios e fragilidades na vida dos cidadãos-sobretudo daqueles que dela são alvo (nalgunsdestes contextos, os técnicos –referimo-nos aqui aos assistentes sociais- são o “rosto” mais directo e acessível, e sobre os quais recai, muitas vezes, o ónus da responsabilidade). Na minha opinião, a ausência dos Assistentes Sociais nos meios de comunicação social, sobretudo nos Média tradicionais tem sido pouco positivo para a classe, não somente na sua própria defesa (quando pessoal e profissionalmente visados no espaço público, e sem a oportunidade de defesa no mesmo espaço). Mas, também, pela falta de divulgação daqueles que são os valores e objetivos do Serviço Social, ideias, opiniões, tão importantes para a afirmaçãoda estrutura profissional. Arriscar-me-ia até a dizer que a estagnação e até desvalorização que vimos assistindo no âmbito da profissão -do serviço social- resulta do facto de não termos ainda percecionado a importância de nos fazermos representar nos “Média” (efectivando, tantas vezes, projectos de mérito na comunidade, mas“invisíveis”, e habitualmente instrumentalizados nos diversos sistemas, inclusive nos espaços públicos  mediáticos). Seria interessante perceber as principais razões para o facto, algumas das quais se centram, do meu ponto de vista, no escasso debate crítico na classe, quer ao nível interno, quer em contextos externos à profissão (estando os Assistentes Sociais ainda muito delimitados ao contacto intra e entre pares e com as estruturas representativas daclasse, bem como aos contextos socioinstitucionais e “privados” e informais, ou seja, naqueles espaços que são as nossas “zonas de conforto”). Outra razão poderá ser aquela a que denomino de “receios da exposiçãomediática e suas consequências”, evidenciadoainda os profissionais da área significativas dificuldades em sistematizar a sua ação num discurso acessível a todos; há, naturalmente, um forte sentimento de insegurança e receio por eventuais represálias e prejuízos no contexto profissional; e, a última (e/ou talvez a primeira razão) prender-se-á com o facto dos assistentes sociais ainda não merecem um adequado reconhecimento da parte dos profissionais da comunicação social (jornalistas e outros profissionais da comunicação). Pois, a todos nós vemos frequentemente nos Média outros interlocutores/profissionais de áreas afins e outras, em diversos programas a abordar temas nos quais os profissionais do Serviço Social têm um domínio específico (da sua área científica, analítica, e na sua intervenção quotidiana), detendo, inclusive, nas instituições em quem exercem a sua actividade, elevadas responsabilidades (designadamente na área dascrianças e jovens, mulheres, idosos, em risco e perigo, desemprego, pobreza e exclusão social, isolamento, adopção, deficiência, imigração/refugiados, entre as demais problemáticas nas quais os assistentes intervêm na sua práticaregular), mas não são eles os convocados, porquê?.

Poderemos afirmar que, os assistentes sociais dispõem de competências técnico-científicas e intervenções junto de indivíduos/famílias e comunidades com as quais trabalha, geralmente ajustadas. Nunca será demais lembrar o impacto significativo que o trabalho do colega, António Pinto (Assistente Social) usufruiu no espaço público, no exercício da profissão, na Junta de Freguesia de Campanhã, Porto (distinguido e condecorado pelo parlamento português), com elevada mediatização nos meios de comunicação social, nomeadamente na televisão e rádio….Portanto, o ponto é (em meu entender) que a articulação entre o Serviço Social e os Média será um tema no qual a classe profissional dos Assistentes Sociais terá de refletir e investir a partir de agora, em Portugal.

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Publicado por Irene Ferreira

Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior deServiço Social do Porto (ISSSP) e frequentou a licenciatura em Ciências da Educação daFaculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto. É mestre em “Estudos Sobre as Mulheres”, pela UAb - Universidade Aberta, Lisboa, frequência do curso de doutoramento, na área das Ciências da Comunicação. Profissionalmente,  Técnica de Reinserção Social/Assistente Social.

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