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A fotografia de uma Democracia encenada

Créditos da imagem – Biblioteca Nacional, acervo de cartazes / Portugal 25 Abril 1974 / [foto.] Sérgio Guimarães. - Lisboa : S. Guimarães, 1974 ([Lisboa]: : Tip. Anuário). - 1 cartaz : color. ; 69x48 cm

Onde andará o Diogo, a nossa “bandeira” de Abril? Há uns anos, soube que ele estaria a viver numa casa de tijolos vermelhos e jardim, em Londres, na margem sul do Tamisa, sendo um homem de família e director financeiro de uma empresa de distribuição…

Eis a fotografia que se tornou o símbolo da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974. O menino de caracóis louros e roupa esfarrapada, descalço, chamava-se Diogo Bandeira Freire e tinha 3 anos. Foi fotografado por Sérgio Guimarães, a colocar um cravo vermelho no cano de uma G3, como se fosse uma jarra. O simbolismo da imagem resultou em pleno e perdurou no tempo. Um golpe publicitário de uma Democracia encenada que para sempre fará parte da nossa memória particular e colectiva.

De facto, Diogo não era o menino de classe humilde que o cenário da fotografia sugeria. Como o seu nome indica, é filho de Pedro Bandeira Freire que, naquela altura, era o proprietário dos cinemas Quarteto e a sua família vivia de acordo com um estilo de vida burguês.

Em 2006, aquando das comemorações do dia 10 de Junho, o Presidente da República, Aníbal Cavaco e Silva, encontrou-se com Diogo Bandeira Freire, nessa altura com 35 anos, em Serralves, no Porto, para o homenagear. Até àquela data, Diogo nunca tinha votado, nem em Portugal, nem em Inglaterra, mas afirmava envergonhar-se desse facto.

Numa entrevista concedida ao Correio da Manhã, em 2010, surgiram as seguintes questões:

«CM – “25 de Abril, sempre.” O que significa para si?

DBF – Nunca pensei nisso, mas se o 25 de Abril representa democracia, liberdade e a consciencialização das pessoas sobre deveres, como o de votarem, a frase é válida.

CM – Mas já a tinha ouvido?

DBF – Já, mas nunca tinha pensado sobre ela. Há milhentas maneiras de interpretá-la: se significa nacionalizar todas as indústrias, tirar os bens às pessoas, não muito obrigado. O 25 de Abril, de certa forma, também tem duas faces.»

Das muitas faces que o 25 de Abril de 1974 desde logo exibiu, realço a da própria fotografia simbólica de Diogo Bandeira Freire, a qual resultou de uma encenação irónica da Democracia: um menino rico a fazer de conta que era pobre. Apesar de todo o Povo estar na rua – os pais, as mães e os seus filhos – ninguém se lembrou de dar protagonismo a uma criança de origem humilde. Logo, dificilmente podemos admitir que no primeiro acto dessa peça monumental houve um 25 de Abril para as classes desfavorecidas – ”O Povo é quem mais ordena”, mas só às vezes.

Mas ainda bem que os Capitães de Abril nos ofereceram a Revolução dos Cravos. Ainda bem que nos encheram de esperança pela constituição efectiva de uma Democracia onde todos podemos exercer plenos direitos de cidadania. Esta foi e é a ideia fundamental que poderá condicionar as nossas vidas.

No entanto, depois de tantos anos, causam mau estar e até alguma perplexidade inúmeros “cenários” e “figurantes” da sociedade portuguesa onde impera a corrupção e a pobreza, onde muitos políticos fazem de conta e nós fechamos os olhos porque estamos cansados de esperar uma Democracia mais “democrática” que tarda em chegar. Mas este é outro 25 de Abril.

Afinal de contas, é ainda preciso salvar Abril.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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