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A forma do tempo

www.biography.com/people/jd-salinger

O tempo em si é um absurdo: 

só existe tempo para um ser que sente. 

E o mesmo acontece em relação ao espaço.

Friedrich Nietzsche

Conta-se que um dia um jovem escritor foi ao psiquiatra e este lhe disse: «Espero que esteja melhor do que eu». O paciente retorquiu: «E eu espero que no fim da consulta pague o senhor a conta».

Hoje, ler um escritor como J. D. Salinger é sentir a alienação do tempo. Mais penoso ainda: é encontrar um verdadeiro escritor no meio de uma montanha de palha. Holden Caulfield, a personagem adolescente de “Uma Agulha no Palheiro” foi o símbolo para uma geração de novos leitores que despertou para a vida através do culto da sua própria adolescência. Caulfield deu forma ao tempo, e conseguiu provar que a primeira fase da vida humana não é coisa do passado: é desenvolvimento contínuo; experiência em progresso que torna mais ou menos evidente o que somos e representamos para a sociedade.

Salinger criou um pequeno monstro, Caulfield, um prodígio da natureza humana, que veio ocupar o imaginário de milhares de adolescentes e adultos, assombrando-os e ampliando os seus fantasmas e inquietações. Salinger também viveu os tormentos da sua própria criação: via “caulfieldezinhos” por todo o lado, nas ruas escuras, nos miúdos que o abordavam com o livro para ele autografar. Todos eles reclamavam protagonismo e identidade, obrigando o autor a viver em reclusão.

Salinger percebeu que a adolescência não é um estado do tempo. Nem uma inocência perdida, porque jamais se perde o que é criado pela experiência de vida. O tempo é uma agulha na consciência daqueles que não ignoram os processos psicológicos que as acções do passado lhes impõem como solução para algo criativo.

Quando as palavras são de névoa, gélidas, a própria escrita torna-se uma pista de insensibilidade e paralisia. A indiferença de Salinger pelo meio literário na sua época foi todo o peso que ele pretendeu dar à sua ausência do mundo, riscando-se da memória e das vivências de Caulfield, com o risco de ser absorvido por uma fenda do tempo. Porém quando um escritor como Salinger renuncia à exposição pública, claramente em sofrimento, num ciclo de obsessão criadora e só esporadicamente dando sinais de vida, publicando menos, a sua obra literária transforma-se na imagem do pato da história que ficou preso dentro do lago congelado.

J. D. Salinger terá pensado que há grandes e belos romances que dispensam uma visita ao psiquiatra. Mas outros haverá que são capazes de enlouquecer e tornar imbecis os seus leitores. As boas e as más influências são sementes lançadas a toda uma geração que ainda hoje procura no tempo a tal agulha de palheiro que dê sentido à vida.

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