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A CULPA VAI CONTINUAR A MORRER SOLTEIRA?

Na ordem do dia estão os negócios da Caixa Geral de Depósitos, os empréstimos sem fundo a gente que nunca pensou, por um momento, devolver sequer um euro, a perda de 580 milhões de euros com empréstimos sem garantias, a culpa do actual governador do Banco de Portugal, à altura administrador da Caixa Geral de Depósitos e que terá sido mais um a dar aval para alguns ruinosos negócios.

Mas que tal um mergulho ao fundo da questão?… Ao princípio dos novos tempos?… “Ao passo maior que a perna”?… Afinal, não é assim que se lida com as pessoas comuns quando se tenta perceber aonde e porque é que a vida começou a ficar virada do avesso?…

Recuemos, pois, até 1993 e ao então novo edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos. Cavaco Silva era o primeiro-ministro. “Vendeu” (ou alguém por ele) a ideia da necessidade de uma megalomania assim com um custo “irrisório” que não iria além dos 7 milhões de contos (35 milhões de euros). E derrapou… derrapou… derrapou… até ter custado aos portugueses qualquer coisa como 50 milhões de contos (250 milhões de euros). Coisa pouca. Quem é que ganhou com tamanha derrapagem?… Eu não aponto o dedo o ninguém, mas na altura o concurso foi adjudicado à Lusotecna, de Alfredo Nobre da Costa, que por acaso chegou a ser primeiro-ministro em 1978 durante 3 meses, depois de ter feito carreira e muitos amigos pelo Grupo Champalimaud, pela Fábrica de Cimentos Tejo, Siderurgia Nacional, EFACEC, SACOR, sempre com cargo de administrador e antes de 74. Nobre da Costa já morreu mas, claro, nada se lhe ficou a dever. A factura foi devida e atempadamente cobrada. Hoje, a Lusotecna até já tem outro nome, estrangeiro, mais pomposo e adequado à modernidade.

Aconteceu alguma coisa a Cavaco Silva?… Aconteceu. Elegeram-no presidente da República… duas vezes.

Se consideramos, hoje, 580 milhões de euros em perdas um escândalo, então que dizer de 250 milhões, por uma única obra, em 1993?… “Peanuts” para um país bem sucedido e embriagado com tanto dinheiro que vinha de uma esbanjadora CEE.

Adiante. Passaram 17 anos. Em2010, o país estava na banca-rota e, numa daquelas operações de cosmética que só a malta das finanças entende, o edifício-sede foi vendido ao… Fundo de Pensões da própria Caixa Geral de Depósitos pelo extraordinário valor de… 250 milhões de euros. Sério?… 

Será que um dia destes se terá coragem e capacidade para sentar no banco dos réus os verdadeiros culpados?…

Ou irá continuar-se a dar medalhas a “artistas” que um dia acordam de um sonho a achar que se precisa de um edifício exactamente assim no centro de Lisboa: 15 pisos, 58 elevadores, 6 escadas rolantes, 400 quadros eléctricos, 510 bocas de incêndio, 5 mil detectores de fogo, 450 botões de alarme, consumo de electricidade semelhante ao da cidade de Santarém (diziam os jornais na altura), auditório com 700 lugares, dois trípticos de tapeçarias de Júlio Pomar e Júlio Resende, painéis de azulejo de Graça Morais e Rolando Sá Nogueira, um grupo escultórico de Lagoa Henriques, cúpula exterior com revestimento a mosaico vitrificado de Eduardo Nery… e quem pagou tudo isto?… Eu e tu, trouxa, que se calhar nem fazes a mais pequena ideia da existência de tal coisa na capital.

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Publicado por João Pedro Martins

João Pedro Martins nasceu em 1967, em Vila Franca de Xira. Jornalista e escritor, deu os primeiros passos na Imprensa Escrita e na Rádio com apenas 17 anos. Rádio Comercial, RTP e TDM (Macau), entre outros, fazem parte do seu percurso.
Livros Publicados: Pedras Soltas - poemas (Fronteira do Caos Editores/2014); A Celebração do Rei Lagarto – romance (Fronteira do Caos Editores/2013); Amor, Meu Grande Amor – romance (Fronteira do Caos Editores/2012); A Promessa – romance (Fronteira do Caos Editores/2010); Segredos – romance (Fronteira do Caos editores/2009); Céu Negro – romance (Fronteira do Caos editores/2008); As Portas ou a morte de um mito – romance (Garrido Editores/2003).
Autor de texto "O Mundo da Lua", em Antologia de Poesia e Prosa (Lua de Marfim Editores, 2014).
Autor da Peça de Teatro: Paquera Cultural, levada à cena em Lisboa e em São Paulo, Brasil, integrada no Festival de Peças de Teatro de Um Minuto em 2013.
Troféu Excelência 2014, em reconhecimento ao valor artístico, da Literarte – Associação de Escritores e Artistas, que fraternalmente congrega artistas de diversas vertentes e entidades culturais do Brasil e do Mundo.
Membro Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.
Links: Ver Livros - Escritores Online - Conexão

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